O caso dos jornalistas que viraram blogueiros

O caso dos jornalistas que viraram blogueiros

Há hoje no Brasil uma única revista de viagens de circulação nacional. É publicada por uma editora que, apesar de ainda ser a maior do país, está longe de ser o império que foi décadas atrás em função das transformações digitais. Nos jornais, se o caderno de viagens nunca foi uma prioridade editorial e de investimentos, com a agonizante crise financeira da imprensa de papel ele passa a ter uma relevância inócua dentro das redações. Onde, então, jornalistas podem escrever sobre viagem no Brasil? Na blogosfera.

Ecossistema democrático que acolhe qualquer pessoa que deseja compartilhar relatos, experiências e informações dentro de um domínio próprio, a blogosfera de viagens do Brasil é, naturalmente, povoada por profissionais de diferentes áreas. Dentre eles, estão jornalistas que encontraram em seu blog de viagem a oportunidade de criar seu próprio veiculo de comunicação, sua própria audiência, gerar renda e fazer disso uma carreira. É mais uma das várias oportunidades de empreendedorismo em mídia digital para jornalistas.

Faço parte desse ecossistema desde 2014, quando optei por deixar o trabalho de redatora em um jornal impresso para fundar junto com minha parceira Gracielle Fonseca o Festivalando, um blog de viagens para festivais de música e turismo musical. Parte da minha coragem de levar esse projeto adiante veio do sucesso do 360 Meridianos, outro blog de viagens feito por tres amigos meus da universidade, todos jornalistas, Luiza Antunes, Natalia Becattini e Rafael Sette Câmara. No meio do caminho, conheci outros blogs igualmente bem sucedidos, como o Matraqueando, também comandado por uma jornalista, a Silvia Oliveira.

blogs de viagem

Informação como serviço

Uma certeza que tenho a esta altura é que o que tem tornado possível a sustentabilidade de blogs de viagem e a coexistência de centenas deles é a qualidade da informação prestada – um tipo de informação que o jornalismo de viagem tradicional já não da mais conta de suprir.

Quem viaja no Brasil quer ler relatos sobre experiências em destinos turísticos – o tipo de artigo que se encontra numa revista tradicional ou em um blog. Mas quer também ter suas dúvidas minuciosamente respondidas: qual a melhor maneira de viajar pela Europa, de trem ou de avião? Quais os melhores bairros para se hospedar em Madri? Como eu economizo dinheiro para dar uma volta ao mundo?

As repostas para essas perguntas não estão na pauta dos jornais e das revistas, mas estão nos posts dos blogs de viagem. São esses veículos digitais que estão suprindo a necessidade de informação prática dos viajantes brasileiros e cumprindo uma das funções básicas do jornalismo, que é a prestação de serviços. Os blogs de viagem mais bem sucedidos no Brasil, feitos por jornalistas e também por outros profissionais – publicitários, programadores – seguem essa doutrina simples e com base nisso constroem sua audiência e reputação.

O 360 Meridianos, no ar desde 2011, por exemplo, é uma das poucas fontes no Brasil sobre viagem para a Índia. E uma das mais ricas também, uma vez que os três autores viveram seis meses lá para fazer um intercâmbio. De lá, saíram para uma volta ao mundo que deu origem ao blog – a propósito, eles foram um dos primeiros veículos do Brasil a informar o público sobre toda logística e pormenores para se realizar uma volta ao mundo. Hoje, o número de visitantes únicos do site é cerca de cinco vezes maior que a tiragem nacional da maior revista de turismo do Brasil; se considerarmos os pageviews, esta diferença fica quase dez vezes maior.

O Matraqueando é uma das referências em viagem econômica no Brasil, uma questão crucial para os viajantes brasileiros: viajar ainda é um luxo no Brasil, e um luxo que se faz ocasionalmente. O blog está no ar desde 2007. O Festivalando, por sua vez, é um blog de viagens pioneiro ao focar em um nicho de viagem muito bem delimitado, que é viagem para os festivais de música e turismo musical, atendendo dessa forma a uma comunidade antes não servida pela cobertura de viagem tradicional. Estamos no ar desde 2014.

Monetização

O que permite que blogs como estes se tornem projetos sustentáveis é um modelo já bem estabelecido no segmento de viagens: marketing de afiliados. É majoritariamente da renda ganha com comissões de vendas de reservas de hotéis, passagens aéreas, seguro viagem, câmbio e ingressos para atrações turísticas que estes blogs vivem.

A fórmula é simples: os autores inserem links com códigos de rastreamento dos serviços de viagem dos quais sao afiliados em seu conteúdo. Quando alguém concretizar uma compra por meio de um desses links, o registro é feito e o pagamento, efetivado. Entretanto, gerar resultados financeiros minimamente sustentáveis com este modelo é complicado e pode demorar.

É preciso ter um volume alto de vendas para receber montantes significativos, pois as comissões têm valores individuais muito pequenos. Para ter um volume de vendas alto, é preciso ter um tráfego razoável. Para ter um tráfego razoável, é preciso ter um bom ranqueamento no Google, pois grande parte das visitas de blogs de viagens são geradas em buscas orgânicas do Google, por gente que está tirando suas dúvidas de viagem online. Para ter um bom ranqueamento no Google, é preciso produzir conteúdo de qualidade de maneira contínua e consistente, e ainda fazer um bom trabalho de SEO. Paralelamente é preciso também construir uma audiência cativa, que irá visitar o seu site independentemente da necessidade de uma pesquisa no Google.Para criar a audiência cativa, é preciso trabalhar bem seus canais de distribuição nas redes sociais, construir um relacionamento de confiança com seus leitores e trabalhar a credibilidade do seu blog. Assim, eles se sentirão confiantes em clicar no link daquele hotel que você diz ser um dos melhores, mais baratos ou mais bem localizados da cidade. Ufa!

Resumindo, e fazendo o caminho inverso: produza conteúdo que seja útil e resolva as necessidades dos seus leitores, distribua-o nas redes sociais, construa credibilidade e um relacionamento com sua audiência, demonstre a qualidade do seu blog para os mecanismos de busca com estratégias de otimização, cresça seu tráfego, atinja um volume razoável de vendas. Ao fim desse longo caminho você verá uma das principais saídas para gerar renda com o seu blog de viagens.

marketing de afiliados

Marketing de afiliados

Monetizar um blog com marketing de afiliados é um caminho demorado, conforme já foi dito. Pode levar uns dois anos até os primeiros resultados começarem a aparecer e isso obriga praticamente todos os autores a se dedicarem a atividades paralelas até tudo se acertar. Mas é uma estratégia que pode ser colocada em prática desde a publicação dos primeiros artigos, permitindo que você mesmo tome controle sobre a sua primeira fonte de receita, sem ter que esperar por marcas ou patrocinadores. Essas são duas lições que aprendi desde o começo com os meus amigos do 360 Meridianos, que já estão no negócio há mais tempo que eu.

Outro aspecto interessante e recompensador do marketing de afiliados é o fato de que ele é uma forma de fazer com que seus próprios leitores paguem pelo trabalho que você fez. Uma prática comum dos blogs de viagem é informar à audiência que, ao fazer uma reserva por um dos links do blog, os autores receberão uma comissão. É como se disséssemos aos nossos leitores: ei, eu te dei esta informação de que você tanto precisava para resolver a sua viagem, que tal você me recompensar fazendo a reserva por este link, para que eu ganhe uma porcentagem do que você vai pagar para este hotel?

Naturalmente, o marketing de afiliados não é a única forma de ganhar dinheiro nos blogs de viagem – apesar de ser a mais importante fonte de renda de todos, dos maiores aos menores. A publicidade nativa é outra fonte relevante, principalmente para os blogs de grande audiência. Tenho percebido recentemente com o Festivalando que esta também é uma oportunidade boa para blogs como o nosso, que são menores, mas têm um nicho muito bem definido e segmentado. À medida em que o blog se consolida, vemos as marcas se aproximando de nós e querendo estabelecer parcerias comerciais.

Muitos blogs também apostam em serviços e produtos próprios. Alguns se especializam em produzir roteiros personalizados para os leitores, outros organizam viagens e tours guiados, outros produzem seus próprios guias de viagem eletrônicos. O Matraqueando é um caso exemplar sobre como esse tipo de produto pode se tornar bem sucedido. Silvia Oliveira iniciou uma série de guias chamados “O barato de” dedicados a cidades diferentes no Brasil e no mundo. São oito volumes até hoje. É uma das principais fontes de renda do blog e as vendas são tão bem sucedidas que foi necessário criar uma loja virtual em outro domínio somente para suportar as vendas dos guias.

Um detalhe importante: o conteúdo dos guias é uma coletânea dos artigos publicados no blog, que estão disponíveis gratuitamente. Mesmo assim, as pessoas optam por pagar pelos guias editados. Mais uma prova de que quando a informação tem valor para o leitor, ele não vai hesitar em pagar por ela, seja uma investigação densa sobre corrupção na política ou um guia de viagem sobre como gastar pouco dinheiro em Paris.

Profissionalização

Obter resultados de monetização e audiência sólidas não é possível se não houver uma postura profissional por parte de quem está comandando o blog. Quem ainda tem a visão de que um blog é somente um site pessoal, com motivações pessoais e sem ambições de profissionalização ou monetização, está com uma visão desatualizada sobre este nicho.

No que se refere à profissionalização dos blogs de viagem no Brasil, é muito importante destacar o papel da Associação Brasileira de Blogs de Viagem (ABBV). Fundada em 2012, seu objetivo é estabelecer boas práticas de conduta para os blogueiros e educar os representantes do mercado de viagem sobre as melhores maneiras de se relacionar com esses sites, a fim de que ambas as partes saiam ganhando. É a única organização da América Latina desse tipo.

Na ABBV, aprendemos que é imprescindível ter uma política comercial e editorial transparente para nossas leitores. Deixamos claro como ganhamos dinheiro e sinalizamos quando os artigos são monetizados de alguma forma, seja ele uma publicidade nativa ou um artigo com links de afiliados. Explicitamos o que aceitamos e não aceitamos. Alguns blogs, por exemplo, não aceitam fazer viagens pagas. Outros aceitam, mas desde que tenham liberdade para produzir o conteúdo que seja mais interessante para os leitores e desde que a viagem se adeque à linha editorial do blog.

Silvia Oliveira já foi presidente da ABBV em uma gestão. Rafael Sette Câmara, um dos autores do 360 Meridianos, faz parte da atual gestão. Em todas essas gestões, os membros sempre tiveram acesso a grupos, eventos e ferramentas para aperfeiçoar suas práticas editoriais e comerciais e para ter consciência sobre seu papel de informação para os viajantes brasileiros.

Uma nova identidade profissional

identidade profissional

Fora o desafio de criar um veículo digital do zero e fazê-lo dar certo – um desafio para quem vem de qualquer background profissional – ser um blogueiro de viagem impõe outros desafios específicos para quem vem do jornalismo. Uma nova identidade profissional se forma. Como jornalistas “tradicionais”, repórteres de jornal, somos ensinados a apagar nossa voz e nos distanciar na hora de fazer nosso relato. Como blogueiros, escrevemos em primeira pessoa, sempre sobre o nosso ponto de vista e a partir da nossa experiência pessoal. Ao mesmo tempo, continuamos seguindo os mesmos princípios jornalísticos de oferecer uma informação de qualidade, precisa e útil para nossos leitores.

Como isso muda nosso ethos jornalístico? Ainda somos jornalistas apesar de nos dedicarmos exclusivamente a um blog? Há uma crise de identidade quando um jornalista se torna um blogueiro? Fiz essa pergunta para a Sílvia Oliveira, do Matraqueando, e para o Rafael Sette Câmara, do 360 Meridianos. Silvia diz que nunca se sentiu menos jornalista por ser uma blogueira. “Muito pelo contrário. Eu acho que ser uma jornalista só me abriu portas na blogosfera”.

Rafael enxerga um dilema menor. “Crise exatamente não, mas acho que estamos nas duas identidades. E embora também tenha orgulho de dizer que sou blogueiro, em geral continuo me identificando como jornalista. Mas claro que muitas vezes fica um sentimento de não se encaixar perfeitamente em nenhum dos grupos”, responde.

Eu tenho o mesmo sentimento que Rafael e às vezes me assusta um pouco os desdobramentos dessa identidade de blogueira, mesmo que eles sejam aparentemente positivos. Há quase um ano, o Spotify entrou em contato conosco porque estava querendo estreitar sua relação com influenciadores digitais. Eu não sabia até então, mas segundo a doutrina da internet, eu sou uma influenciadora. Basicamente quer dizer que eu tenho poder para influenciar a decisão das pessoas.

Mixed feelings é a melhor expressão que tenho para definir o que penso disso. Fico feliz que meu trabalho tenha ressonância em meio aos leitores, mas eu fui preparada para informar pessoas e não para influenciar. Eu ainda não sei o que pensar quando alguns dos meus leitores trocam mensagens comigo no Facebook e dizem que querem me encontrar nos festivais do Brasil. Faço um esforço para acreditar que essa é uma daquelas tendências digitais que logo vai ser engolida pela próxima onda, me permitindo continuar com a minha função básica de informar simplesmente.

Mas já que somos essa forma híbrida de profissional, que tipo de mídia nossos blogs são? Sílvia está convencida de que um blog levado a sério pode ser caracterizado como jornalismo. Um blog profissional – sobre qualquer assunto – é um veículo jornalístico do começo ao fim. Um blogueiro sério apura, checa, escreve, edita fotos, cuida do layout e publica regularmente. Estas são todas atividades típicas de um jornalista profissional”.

Rafael vai um pouco além ao usar como exemplo sua experiência junto com Luíza e Natalia no 360 Meridianos. “Como todo veículo de comunicação, nele há de tudo. Enfim, acho que há jornalismo no 360, mas nem tudo que o 360 faz é jornalismo, mais ou menos como qualquer veículo de comunicação. Há muitos textos que são sim jornalísticos e poderiam muito bem estar em portais ou sites mais tradicionais, por mais que a linguagem mantenha um padrão de identidade do blog. Em certos textos optamos por entrevistar pessoas, procurar fontes, dar voz para personagens e citar dados – coisas que faríamos em outros veículos jornalísticos. Por outro lado, temos também artigos de opinião e crônicas, coisas que também têm seu espaço em veículos tradicionais. A diferença central é que os três jornalistas fazem de tudo (e até outras coisas, como contabilidade, SEO, programação, etc).”

De fato, desde que comecei o Festivalando sinto como se eu fosse uma repórter-assessora-web designer-programadora-marketeira-gerente estrategista. É como se de repente você se transformasse em um megazord formado pela junção de todos os departamentos de um meio de comunicação tradicional. Somos transformers. Mas no fim das contas ainda fazemos jornalismo, com uma única diferença: somos jornalistas no nosso próprio veículo de comunicação.

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